Estabelecido há 18 anos nos Estados Unidos, o médico-veterinário Hélio Autran de Morais é referência quando o assunto é cardiologia e medicina interna, áreas em que se especializou. Entretanto, seu interesse pelos temas da Medicina Veterinária é diverso e a saúde única é um deles.

Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o gaúcho é, atualmente, professor titular do Departamento de Clinical Sciences da Oregon State University, além de diretor e membro do corpo clínico do hospital veterinário da instituição. Desde março, coleta informações que reúne no artigo Covid-19 e os Animais de Companhia, de modo a atualizar-se e aos colegas sobre a relação entre a doença e os pets, compartilhando suas descobertas e análises nas redes sociais. Para ele, o surgimento do vírus SARS-CoV-2 é um exemplo clássico do que a saúde única representa.

“O novo coronavírus veio, provavelmente, de morcegos, talvez tendo um hospedeiro intermediário, que em função de alterações ambientais e do ambiente propício no mercado da cidade de Wuhan, na China, chegou às pessoas de forma patogênica. Isso mostra a saúde humana, animal e do ambiente interligadas, pois alterações nas três levaram ao surgimento de um vírus mutante causador da infecção nas pessoas”, afirma.

Enquanto acompanha a situação, Autran destaca que o conhecimento adquirido pelo médico-veterinário desde a faculdade é fundamental, não só para evitar novas pandemias como também no suporte à atual crise sanitária, pelo conhecimento de medicina de rebanho e dos próprios tipos de coronavírus, entre eles o aviário, o felino e o canino. O SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido e tem similaridades em termos de patogenia com o tipo felino.

“A destruição ambiental amplia as possibilidades de infecção de pessoas por microrganismos presentes em animais que antes não tinham contato com humanos, seja por transmissão direta ou por vetores. A maioria das enfermidades são transmitidas de animais a pessoas. O médico-veterinário é fundamental por conhecer essa transmissibilidade, preveni-la e aplicar o conhecimento de quem lida com diferentes espécies. Podemos antecipar muita coisa, a atual pandemia era algo que esperávamos, mas num futuro distante. Infelizmente, tudo o que temíamos aconteceu”, diz.

Mudanças velozes

Autran acompanhou surtos de parvovirose canina e uma epidemia de influenza em cães, nos Estados Unidos, e lembra que o SARS-CoV-1, em 2002, já deu uma ideia do que poderia vir. No entanto, ressalta, todo o conhecimento acumulado em epidemiologia é questionado, politizando uma crise que é sanitária.

“O debate é importante, mas a falta de uma estrutura centralizada de como se aplicar esse conhecimento falhou quando mais se precisava, em alguns países. Por outro lado, é incrível a velocidade como evoluem as descobertas sobre a doença. Diariamente, mais de 400 trabalhos relativos à covid-19 são publicados por dia, no Medline (sistema on-line de busca e análise de literatura médica que compõe a base de dados bibliográficos da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos). São experimentos, revisões, casos clínicos e vacinas, entre outros. Todos estão pesquisando sobre a covid-19”, assinala.

Para o médico-veterinário, talvez a vacina não seja a bala de prata que vai acabar com a pandemia. Ele recorda já ter havido uma imunização contra a coronavirose felina que, por causar efeitos colaterais severos, foi retirada do mercado.

“Óbvio que os imunologistas conhecem os estudos anteriores em Medicina Veterinária, porém o conhecimento do médico-veterinário segue fundamental, assim como foi no suporte com respiradores e ventiladores veterinários para uso na linha de frente”, observa, em referência à parceria entre a Academia Brasileira de Medicina Veterinária Intensiva (BVECSS) e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), com apoio do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

Na opinião de Autran, foi um passo importante para o reconhecimento dos médicos-veterinários na saúde. “Temos profissionais capacitados e vale lembrar que a Medicina Veterinária sanitária é muito forte, no Brasil. A pandemia aproximou clínicos de pequenos animais e médicos”, avalia.

Profissão em mudança

O impacto da covid-19 para os profissionais do campo, analisa Autran, é muito menor do que no hospital, por fatores diversos: animais de criação são pouco suscetíveis à doença, têm pouco contato com humanos, o qual, geralmente, ocorre em áreas externas e dificilmente há muitas pessoas num mesmo ambiente, ao mesmo tempo. Ou seja, as mudanças são mais gerais, como a necessidade do uso de EPIs e o distanciamento físico.

Já o ambiente hospitalar foi profundamente afetado, pois envolve muita gente próxima a maior parte do tempo. Por isso, no hospital veterinário em que é gestor foram implementadas mudanças sem previsão de alteração, embora haja planos de flexibilizar as medidas em situações específicas. A anamnese continuará sendo por telefone e a recepção não mais funcionará como sala de espera, tudo para que os proprietários permaneçam o mínimo possível no ambiente hospitalar – no momento, eles nem têm permissão de ingressar no local. Autran imagina, ainda, que a arquitetura desse tipo de estabelecimento terá de mudar para atender a essas novas necessidades, com pé-direito mais alto e ventilação natural. Em momentos como coleta de sangue ou cirurgias, o distanciamento físico é impossível, mas destaca, com organização é viável reduzir o tempo de contato entre as pessoas

“São alterações culturais, como naturalizar o uso de máscaras, pois essas doenças permanecerão endêmicas. Ninguém sabe como será o mundo em um ou dois anos. O que se sabe é que será diferente. Não será só a profissão que deverá ser flexível, o mundo inteiro será. Não existe um mundo pós-covid, mas um mundo com covid”, observa.

Clínica veterinária e saúde única

É neste mundo em mudança que Autran reforça o trabalho do clínico de animais como um dos tripés da saúde única. Não só pela prevenção a zoonoses, mas pelo fato de que o convívio com animais de estimação melhora a saúde e qualidade de vida de tutores. Há estudos, diz, que comprovam que a pressão arterial dos humanos baixa quando se aproximam de seus pets. Ele reforça, ainda, que a guarda responsável evita que pessoas sejam mordidas por animais domésticos ou, numa fuga, além de atropelados, causem acidentes de trânsito.

Por fim, um dos novos focos da clínica de pequenos, segundo ele, é o bem-estar animal. Estimular um ambiente livre de estresse, ansiedade e medo melhora a interação entre pessoas e animais e pode fazê-los viver mais. “Mesmo que não perceba, buscar a prática ideal é uma maneira de o médico-veterinárioaplicar a saúde única. É preciso, em tudo o que fazemos, sempre considerar a interseção entre as saúdes humana, ambiental e animal”, assinala.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social do CFMV